quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Coisas.

É como se tivéssemos algo concreto, sólido em nossas mãos e de repente o objeto virasse pó e suas partículas caíssem no chão e rapidamente tudo se desfizesse, ficando o chão limpo, como se nada tivesse acontecido, como se fosse tudo uma miragem, como se fossem apenas pensamentos, delírios, devaneios, lembranças de um passado ou uma alucinação de um presente. É como se rapidamente o copo secasse sem que tomássemos um gole do líquido que estava nele, como se evaporasse sem que percebêssemos, como se o vento levasse o vapor e nada sobrasse... Nem o líquido, nem o sabor, nem o copo. Nada, nada. Nada de tudo aquilo que tínhamos ou que temos. O que temos é um emaranhado de pensamentos frenéticos gritando em nossas mentes inquietas, tomadas por algum tipo de alucinógeno que nos transporta a um mundo totalmente diferente daquilo que realmente queremos ou desejamos, fazendo com que a ressaca do outro dia seja um conjunto vazio de sentimentos, de atos e de olhares. É como se nada houvesse para contar, como se tudo aquilo fosse uma mentira inventada por uma criança feliz, que brinca de ser o que não é. É como se o dia, as cores, as pessoas, as casas, os prédios, as ruas e os carros, a rotina, enfim, fosse tudo um cenário, um palco de artistas, que sabem que tudo aquilo não é a vida real, que é uma encenação, uma interpretação, uma grande trama disfarçada, a qual só eu não sei que é uma novela mexicana, onde eu sou o mocinho, o enganado, o grande idiota. O grande bobo com um sorriso amarelo, com fatos de outros, com expressões vendidas, com verdades mentirosas para contar. É como se fosse um quebra-cabeça que poucas peças se encaixam, que os encaixes mudam de formato numa velocidade incrível. É como se algo que não sei acontecesse e não existe explicação, motivo ou planejamento. Apenas acontece, no singular ou plural - tanto faz. É como se os móveis trocassem de lugar sem meu comando, meu movimento, sem o barulho da estante arrastando no chão de tábuas, sem os arranhões da mesa de jantar no piso de madeira, sem os barulhos dos vasos de vidro trepidando com as mudanças nada sutis de lugar. São perfeições de um sistema desconhecido que não me faz conhecer o seu porquê. Conheço apenas o intangível, o transparente, o vago e intocável vácuo de coisas sem explicações plausíveis, com denominação imperfeita de "coisas".

3 comentários:

Glênio Freitas disse...

Tem coisas que se sente e não se sabe por que.
São apenas coisas. . .

Matheus Bandeira de Carvalho disse...

Coisas sem denominações. Ou com nome de coisas, enfim, coisas coisificadas.

Leilanir disse...

Mas o encantamento esta exatamente ai, sentir sem saber exatamente o que e o porque...